sábado, 14 de maio de 2011

Yom HaShoah* , Yom HaZikaron* e Yom HaHatsmaut* – Dez dias sensíveis em Israel

O mês de maio começou de forma extremamente sensível em Israel este ano. Tirando a beatificação do Papa e o assassinato de Bin Laden (o que pode trazer implicações sérias para a região), o primeiro dia do mês foi marcado pelo dia de lembrança às vítimas do Holocausto, o Yom HaShoah (Shoah – Holocausto em hebraico).

Um dia em que judeus do mundo inteiro param para lembrar os 6 milhões de judeus europeus que pereceram durante o massacre nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Lembra-se também que ao lado dos judeus outras milhões de pessoas morreram por suas opções politicas, sexuais ou, como no caso dos judeus, por pertencerem a minorias étnicas que não se encaixavam dentro do modelo nazista de mundo.

Um dia triste, onde sirenes tocam às 10 horas no país inteiro e todos param tudo o que estiverem fazendo por três minutos para lembrar e prestar homenagens às vítimas do nazismo. O crescimento do antissemitismo na Europa e a percepção de que a emancipação dos judeus, dentro do âmbito do capitalismo, era impossível, levam ao nascimento e crescimento do movimento sionista moderno no final do século XIX.

Um Estado para o povo judeu passa a ser visto como única alternativa para evitar que o povo possa viver livremente e, como todo povo, ter direito à autodeterminação. A lembrança às vítimas fortalece o laço de solidariedade do próprio povo, especialmente entre aqueles que não vêem na religião ou na crença no deus único o laço que o liga ao resto do povo. Também fortalece o sentimento de que só num Estado, onde os direitos do povo sejam universais, é possível viver livremente.

O holocausto judeu na segunda grande guerra mostra que o antissemitismo arraigado, incentivado por dois mil anos, sela a necessidade de um povo, que teve a sua população européia praticamente dizimada, de ter seu Estado.

No dia 9 de maio, celebrou-se o Yom HaZikaron, onde todos os soldados e vítimas do terrorismo são lembrados por seus atos e pelo seu trabalho na defesa do Estado de Israel que, por diversas questões que não serão discutidas nesse texto, está sempre lutando pela sua existência.

Mais uma vez o país pára, só que nesse feriado por duas vezes, na véspera, no dia 8 à noite e no dia 9 pela manhã as sirenes voltam a soar e por 2 minutos todos param suas atividades e lembram os heróis de guerras que caíram pela liberdade e autodeterminação do povo.

No final da década de 50, com o fim da Segunda Guerra Mundial, parte dos poucos judeus que conseguiu vencer os terrores do nazismo chega à Palestina Inglesa para ajudar na construção do Estado de Israel. Alguns, já ao descerem dos navios, recebiam armas e eram encaminhados para um determinado kibutz a fim de receber treinamento militar (quando havia tempo) para defender as comunidades e assentamentos contra ataques árabes.

Sobreviventes do holocausto lutavam com orgulho por um Estado que iria garantir sua liberdade, seu direito de existir. Alguns desses caíram na guerra de Liberação do Estado de Israel e não tinham família, nem em Israel nem na Europa.

A população judaica na Palestina, na época do fim do mandato inglês, beirava os 650.000 habitantes e cerca de 1% dessa população morreu nessa guerra, onde Egito, Jordânia, Líbano, Síria e Iraque invadiram o recém-criado Estado (a guerra começou no dia seguinte à proclamação de Independência).

E agora, 63 anos depois, mais de 22 mil são os mortos lembrados no Yom HaZikaron. Soldados e civis, todos morreram pela sua liberdade, pelo direito de poderem viver sem medo de perseguição, pelo direito de decidir seu próprio futuro.

O Yom HaZikaron está sempre ligado ao próximo dia de celebração, o Yom HaHatsmaut, o dia da independência. A independência do Estado de Israel é comemorada no dia seguinte ao dia de lembrança dos soldados e vítimas do terrorismo.

É interessante o momento em que um feriado acaba e o outro começa. O calendário judaico é lunar, ou seja, o dia começa no início da noite. Agora como é primavera e os dias são mais longos, o início do dia é por volta de oito horas da noite. Em poucos minutos o país sai de um dia triste, onde as bandeiras estão a meio palmo, para um dia de alegria, da independência, onde as bandeiras tremulam em todos os cantos. Carros carregam bandeiras de Israel, postes de luz são enfeitados, cidadãos decoram suas casas, repartições estendem suas flâmulas. O orgulho de ter um Estado toma conta dos cidadãos judeus de Israel e contagia os mais afastados.

Histórias de quem chegou aqui sem nada e lutou para ser livre, para construir um país mais justo, de quem lutou pelo seu povo e pela liberdade deixam claro que o Estado de Israel não foi criado para ser uma ocupação ocidental no Oriente Médio (como muitos gostam de dizer), mas sim para atender as necessidade de um povo que não pôde sentir o gosto da liberdade por 2 mil anos, desde que foram expulsos de seu Estado.

Esse três feriados consecutivos me deram outro panorama sobre a natureza de Israel. Como muitos fazem, não penso que o holocausto seja o melhor argumento para o direito dos judeus a terem seu Estado, e, principalmente, os dois últimos feriados me deixaram bastante impressionados.

Imigrantes fugindo de perseguições na Europa e na Rússia vieram em busca da sua liberdade e isso continua acontecendo até os dias de hoje. Conheci um imigrante argentino jovem, que usa um chapéu todos os dias. Quando perguntado o por quê de usar o chapéu, ele respondeu que desde a época em que morava na Argentina ele já tinha esse hábito. Não faz parte de um estilo de moda ou algo do gênero. O fato é que no bairro dele, em Buenos Aires, ele não poderia sair usando o kipá (o chapéu que quem segue a religião judaica usa no dia a dia) na rua, porque poderia ser espancado pelo simples fato de ser judeu. Ao imigrar para Israel, ele busca a sua liberdade, busca poder manifestar sua crença sem ser perseguido na rua. Em Israel, esse tipo de perseguição ele não sofrerá e isso nem o capitalismo nem o comunismo russo foram capazes de resolver. As perseguições às minorias nunca deixaram de existir e a emancipação dos judeus nunca foi alcançada.

O Estado de Israel completa 63 com mais contradições do que nunca. Sua existência ameaçada e suas políticas cada vez mais controversas, mas um Estado é a única resposta que o mundo moderno conseguiu dar ao problema que os judeus enfrentavam, sem casa, sem família, sem nada.

Aparentemente, quando Israel completar 64 anos, a conjuntura do Oriente Médio estará bem diferente e só podemos esperar que as atrocidades cometidas por ambos os lados no conflito possam ser resolvidas na esperança de que, no próximo Yom HaHatsmaut, a independência seja real e que no Yom HaZikaron possamos render a melhor homenagem aos soldados que lutaram pela liberdade do povo judeu, a paz.

*Yom HaShoa – Dia de lembrança às vítimas do Holocausto
*Yom HaZikaron – Dia de lembrança dos soldados mortos e das vítimas do terrorismo
*Yom HaHatsmaut – Dia da Independência

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