sábado, 21 de maio de 2011

O Nakba

O dia 15 de maio é um dia de luta e resistência para o povo palestino. Pelo calendário romano, é o dia em que Israel declarou sua independência com o fim do mandato britânico na Palestina. O Nakba – que, em Árabe, significa tragédia –  como é chamado pelos palestinos, pode ser encarado de várias formas e representar diversas formas de pensamento e, mesmo sem a criação do Estado de Israel, ele poderia ter acontecido.

Para boa parte do povo palestino, o Nakba representa um dia de luta contra a ocupação israelense nos territórios palestinos desde 1967, que vem assolando suas vidas, não respeitando seus direitos, sua liberdade. Querem o fim da ocupação e viver em seu Estado, lado a lado com Israel.

Outra parcela da população palestina tem uma visão diferente e sua política é pela destruição do Estado de Israel e a reconstrução da Palestina Histórica.

Em Israel, a celebração do Nakba representa um absurdo para parte da população. Eu os entendo, mas não concordo, principalmente porque eles não se propõem a entender o que o outro lado, que está comemorando o Nakba, pensa. E não acho um absurdo a celebração do Nakba, justamente por entender o que a partilha do seu território representou para o povo palestino.

Em meados do século XX, os judeus são perseguidos por toda a Europa e buscam, na construção do seu lar nacional, a sua segurança. Os palestinos, que nunca tiveram seu Estado, alheios à desgraça ocorrida aos judeus, não querem a divisão do seu território. Querem que, com o fim do mandato britânico, a Palestina seja território independente e não seja partilhado para a criação de um Estado para o povo judeu.

No livro Israel and Palestine de Avi Shlaim, ele resume bem o pensamento sobre o tema e penso que o entendimento disso é a chave para se entender os próximos passos para a resolução do conflito:

“The first debate is about 1948. I believe that the creation of the State of Israel involved a terrible injustice to the Palestinians. But I fully accept the legitimacy of the State of Israel within its pre-1967 borders. My critics claim that these two statements are contradictory, that a state based on injustice cannot be legitimate. My reply is as follows. As a result of the creation of Israel, the Palestinians suffered dispossession and dispersal. Over 700,000 Palestinians, roughly half of the indigenous Arab population, became refugees. The name Palestine was ripped of the map. This outcome of the war constituted not merely an injustice but a profound national trauma, a catastrophe or al-Nakba, as it is called in Arabic.
But the Jews also suffered an injustice, perhaps the greatest injustice of the twentieth century – the Holocaust. The Jews are a people and, like any other people, they have a natural right to national self-determination. In the aftermath of the Second World War, the moral case for a Jewish state became unassailable. In the circumstances of 1948, after the hideous suffering inflicted on the Jews of Europe by Nazi Germany, it was an inescapable fact that something on a titanic scale had to be done for them and there was nothing titanic enough except Palestine. This was the background  to the UN resolution of 29 November 1947 for the partition of Palestine into two states, one Jewish and one Arab”. (Shlaim, Avi. Israel and Palestine. London, Verso. 2009)

Tradução:


“O primeiro debate é sobre 1948. Eu acredito que a criação do Estado de Israel envolveu uma terrível injustiça aos palestinos. Mas eu aceito totalmente a legitimidade do Estado de Israel com suas fronteiras pre-1967. Meus críticos dizem que essas duas afirmações são contraditórias, que um estado baseado na injustiça na pode ser legítimo. Minha resposta é a seguinte: como resultado da criação de Israel, os palestinos sofreram desapropriações e expulsões. Mais de 700 mil palestinos, cerca de metade da população árabe local, tornaram-se refugiados. O nome Palestina foi riscado do mapa. Esse resultado da guerra constituiu não somente uma injustiça, mas um trauma nacional profundo, uma catástrofe ou al-Nakba, como é chamado em árabe”.

Mas também os judeus sofreram uma grande injustiça, talvez a maior injustiça do século XX – o holocausto. Os judeus são um povo e, como qualquer outro povo, tem o direito natural a autodeterminação nacional. No final da Segunda Guerra Mundial, a questão moral do Estado Judeu se tornou inquestionável. Em 1948, depois do tremendo sofrimento causado aos judeus europeus pela Alemanha nazista, era indiscutível o fato de que algo enorme (titânico) deveria ser feito para os judeus e nada era tão enorme quanto a Palestina. Esse era o pano de fundo a época da resolução da ONU de 29 de novembro de 1947 pela partilha da palestina em dois estados, um judeu e outro árabe. (Shlaim, Avi. Israel and Palestine. Verso. London, 2009).


Entender a necessidade de ambos os povos por seu Estado e tudo que ambos sofreram em sua história recente é de fundamental importância para a construção de processos de paz fortes.

O Nakba desse ano veio junto com os gritos de liberdade de povos oprimidos pela região e ventos por direitos, respeito e tolerância possam celebrar o fim da catástrofe Palestina, que se arrasta com a ocupação de seu território por 63 anos: de 1948 até 1967 pela Jordânia e pelo Egito e partir de 1967, por Israel.

sábado, 14 de maio de 2011

Yom HaShoah* , Yom HaZikaron* e Yom HaHatsmaut* – Dez dias sensíveis em Israel

O mês de maio começou de forma extremamente sensível em Israel este ano. Tirando a beatificação do Papa e o assassinato de Bin Laden (o que pode trazer implicações sérias para a região), o primeiro dia do mês foi marcado pelo dia de lembrança às vítimas do Holocausto, o Yom HaShoah (Shoah – Holocausto em hebraico).

Um dia em que judeus do mundo inteiro param para lembrar os 6 milhões de judeus europeus que pereceram durante o massacre nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Lembra-se também que ao lado dos judeus outras milhões de pessoas morreram por suas opções politicas, sexuais ou, como no caso dos judeus, por pertencerem a minorias étnicas que não se encaixavam dentro do modelo nazista de mundo.

Um dia triste, onde sirenes tocam às 10 horas no país inteiro e todos param tudo o que estiverem fazendo por três minutos para lembrar e prestar homenagens às vítimas do nazismo. O crescimento do antissemitismo na Europa e a percepção de que a emancipação dos judeus, dentro do âmbito do capitalismo, era impossível, levam ao nascimento e crescimento do movimento sionista moderno no final do século XIX.

Um Estado para o povo judeu passa a ser visto como única alternativa para evitar que o povo possa viver livremente e, como todo povo, ter direito à autodeterminação. A lembrança às vítimas fortalece o laço de solidariedade do próprio povo, especialmente entre aqueles que não vêem na religião ou na crença no deus único o laço que o liga ao resto do povo. Também fortalece o sentimento de que só num Estado, onde os direitos do povo sejam universais, é possível viver livremente.

O holocausto judeu na segunda grande guerra mostra que o antissemitismo arraigado, incentivado por dois mil anos, sela a necessidade de um povo, que teve a sua população européia praticamente dizimada, de ter seu Estado.

No dia 9 de maio, celebrou-se o Yom HaZikaron, onde todos os soldados e vítimas do terrorismo são lembrados por seus atos e pelo seu trabalho na defesa do Estado de Israel que, por diversas questões que não serão discutidas nesse texto, está sempre lutando pela sua existência.

Mais uma vez o país pára, só que nesse feriado por duas vezes, na véspera, no dia 8 à noite e no dia 9 pela manhã as sirenes voltam a soar e por 2 minutos todos param suas atividades e lembram os heróis de guerras que caíram pela liberdade e autodeterminação do povo.

No final da década de 50, com o fim da Segunda Guerra Mundial, parte dos poucos judeus que conseguiu vencer os terrores do nazismo chega à Palestina Inglesa para ajudar na construção do Estado de Israel. Alguns, já ao descerem dos navios, recebiam armas e eram encaminhados para um determinado kibutz a fim de receber treinamento militar (quando havia tempo) para defender as comunidades e assentamentos contra ataques árabes.

Sobreviventes do holocausto lutavam com orgulho por um Estado que iria garantir sua liberdade, seu direito de existir. Alguns desses caíram na guerra de Liberação do Estado de Israel e não tinham família, nem em Israel nem na Europa.

A população judaica na Palestina, na época do fim do mandato inglês, beirava os 650.000 habitantes e cerca de 1% dessa população morreu nessa guerra, onde Egito, Jordânia, Líbano, Síria e Iraque invadiram o recém-criado Estado (a guerra começou no dia seguinte à proclamação de Independência).

E agora, 63 anos depois, mais de 22 mil são os mortos lembrados no Yom HaZikaron. Soldados e civis, todos morreram pela sua liberdade, pelo direito de poderem viver sem medo de perseguição, pelo direito de decidir seu próprio futuro.

O Yom HaZikaron está sempre ligado ao próximo dia de celebração, o Yom HaHatsmaut, o dia da independência. A independência do Estado de Israel é comemorada no dia seguinte ao dia de lembrança dos soldados e vítimas do terrorismo.

É interessante o momento em que um feriado acaba e o outro começa. O calendário judaico é lunar, ou seja, o dia começa no início da noite. Agora como é primavera e os dias são mais longos, o início do dia é por volta de oito horas da noite. Em poucos minutos o país sai de um dia triste, onde as bandeiras estão a meio palmo, para um dia de alegria, da independência, onde as bandeiras tremulam em todos os cantos. Carros carregam bandeiras de Israel, postes de luz são enfeitados, cidadãos decoram suas casas, repartições estendem suas flâmulas. O orgulho de ter um Estado toma conta dos cidadãos judeus de Israel e contagia os mais afastados.

Histórias de quem chegou aqui sem nada e lutou para ser livre, para construir um país mais justo, de quem lutou pelo seu povo e pela liberdade deixam claro que o Estado de Israel não foi criado para ser uma ocupação ocidental no Oriente Médio (como muitos gostam de dizer), mas sim para atender as necessidade de um povo que não pôde sentir o gosto da liberdade por 2 mil anos, desde que foram expulsos de seu Estado.

Esse três feriados consecutivos me deram outro panorama sobre a natureza de Israel. Como muitos fazem, não penso que o holocausto seja o melhor argumento para o direito dos judeus a terem seu Estado, e, principalmente, os dois últimos feriados me deixaram bastante impressionados.

Imigrantes fugindo de perseguições na Europa e na Rússia vieram em busca da sua liberdade e isso continua acontecendo até os dias de hoje. Conheci um imigrante argentino jovem, que usa um chapéu todos os dias. Quando perguntado o por quê de usar o chapéu, ele respondeu que desde a época em que morava na Argentina ele já tinha esse hábito. Não faz parte de um estilo de moda ou algo do gênero. O fato é que no bairro dele, em Buenos Aires, ele não poderia sair usando o kipá (o chapéu que quem segue a religião judaica usa no dia a dia) na rua, porque poderia ser espancado pelo simples fato de ser judeu. Ao imigrar para Israel, ele busca a sua liberdade, busca poder manifestar sua crença sem ser perseguido na rua. Em Israel, esse tipo de perseguição ele não sofrerá e isso nem o capitalismo nem o comunismo russo foram capazes de resolver. As perseguições às minorias nunca deixaram de existir e a emancipação dos judeus nunca foi alcançada.

O Estado de Israel completa 63 com mais contradições do que nunca. Sua existência ameaçada e suas políticas cada vez mais controversas, mas um Estado é a única resposta que o mundo moderno conseguiu dar ao problema que os judeus enfrentavam, sem casa, sem família, sem nada.

Aparentemente, quando Israel completar 64 anos, a conjuntura do Oriente Médio estará bem diferente e só podemos esperar que as atrocidades cometidas por ambos os lados no conflito possam ser resolvidas na esperança de que, no próximo Yom HaHatsmaut, a independência seja real e que no Yom HaZikaron possamos render a melhor homenagem aos soldados que lutaram pela liberdade do povo judeu, a paz.

*Yom HaShoa – Dia de lembrança às vítimas do Holocausto
*Yom HaZikaron – Dia de lembrança dos soldados mortos e das vítimas do terrorismo
*Yom HaHatsmaut – Dia da Independência

Um Breve Prelúdio


Em breve, estarei completando cinco anos longe da terra natal e da Cidade Maravilhosa. Foram 9 meses em Braga, Portugal, 3 anos e 3 meses em Londres, Inglaterra, e, até agora, 9 meses em Israel. Talvez a disposição de construir um blog tenha sido atrasada (apesar da idéia ser antiga) mas, depois de todo esse período longe de casa, só há 9 meses consegui chegar onde eu queria e tem sido uma experiência muito interessante.

Assim, vou passar a utilizar essa ferramenta para partilhar com todos os interessados minhas impressões e visões de uma região do mundo onde o fervor está sempre na pauta do dia, seja o fervor politico e social, seja o fervor religioso.

Escreverei sempre de uma perspectiva progressista, socialista, de quem busca a paz e a igualdade entre os seres humanos. Um ponto de vista de uma pessoa que entende que a santidade da terra não existe se todos os seres humanos que nela habitam e seus direitos não são respeitados por igual.

Desde que cheguei aqui, morei quase 7 meses em um Kibbutz no norte do país, no Mar da Galiléia, e me mudei há quase 3 meses para Jerusalém, a fim de continuar os estudos. A diferença entre as experiências é brutal e ambas são bastante enriquecedoras.

Aos poucos vou partilhando tudo o que aprendo e vivencio por aqui, mas já aponto a direção dessas discussões: a construção de uma Israel para todos os seus cidadãos, onde todos sejam tratados com igualdade e todos se respeitem. Sem fundamentalismo religioso e discriminação. Sem divisões econômicas e sociais. Onde todos possam entender os interesses, anseios e medos do outro, pois só assim a paz poderá ser conquistada.

Já venho esperando ataque de todos os lados. Dos que defendem o sionismo, tal como ele foi pensado há mais de cem anos atrás, bem como dos que não entendem a importância do movimento sionista.

Mas o que penso é que a construção de um Estado para os judeus foi de fundamental importância, já que nem o capitalismo liberal nem o socialismo soviético foram capazes de dar respostas substanciais para a questão judaica e emancipação dos judeus pelo mundo. As perseguições e preconceitos mostraram e mostram que o mundo nunca aceitou o povo judeu vivendo na diáspora e o anseio desse povo de retornar à sua terra sempre persistiu. O povo judeu, como todo e qualquer povo, tem o direito de se autodeterminar e ter seu próprio território. Agora cabe a nós, socialistas, pensar soluções para os problemas enfrentados por Israel, da maneira como foi constituído, o que, no meu ponto de vista, nunca coube e não cabe na atual conjuntura mundial globalizada.

Muitos me criticarão e me acusarão de ser antissionista (e talvez as agressões sejam mais pesadas!), mas, a cada dia que passa, vejo que só se avançarmos dentro do sionismo seremos capazes de manter um Estado onde os judeus possam viver em paz e sem medo.

O mundo está cansado de guerras e precisamos entender que hegemonia não se constrói mais na força, se constrói com respeito e igualdade. Ambos os lados precisam ouvir, discutir , entender o outro, avançar, criticar e, principalmente, autocriticar.